Os Centros Históricos das cidades, vilas e aldeias são compostos de multiplicidades materiais, funcionais e simbólicas. Conforme a sua dimensão, importância histórica e singularidade artística, a gestão destas várias vertentes torna-se particularmente desafiante: compatibilidade entre novo e antigo; preservação de património; garantia de habitabilidade e funcionalidade para residentes; qualificação do espaço público do ponto de vista de zonas verdes, mobilidade e acessibilidade; organização da oferta turística; definição de modelo de gestão atendendo às necessidades de trabalho em rede e cooperativo; sensibilização, mediação e interpretação do património cultural e natural; envolvimento activo da comunidade local; dimensões de engenharia financeira; e promoção da sustentabilidade ambiental.
Depois da destruição provocada aquando da II Guerra Mundial, a influência da Lei Malraux de 1962 em França propondo que alguns núcleos urbanos de grande qualidade fossem equiparados a “monumentos” no que respeita à sua protecção e valorização, e o reforço trazido pela Carta de Veneza de 1964, criaram-se as condições para as classificações de Património Mundial que, a partir dos anos 80, se espraiaram paulatinamente por tantos Centros Históricos da Europa.
Ironicamente, com o desenvolvimento económico e social da sociedade ocidental e a consequente crescente actividade turística, a opção de preservação da carga patrimonial destes mesmos centros conduziu a uma nova dinâmica de descaracterização do edificado e do modo de vida, manifestada na gentrification, no fachadismo e num conjunto de outras problemáticas que são comuns à maior parte dos Centros Históricos mundialmente reconhecidos.
Numa sociedade globalizada onde tudo chega a todo o lado, mais cedo ou mais tarde, os centros históricos de destinos até aqui considerados periféricos começam agora, também eles, a sofrer as mesmas pressões turísticas nas vertentes imobiliárias e sociais, sublinhando-se o quanto estes pequenos aglomerados urbanos apresentam muito menos capacidade de resposta do que aquela registada nos grandes Centros, aumentando consideravelmente o seu risco de descaracterização.
Ora, Portugal interpretou as correntes europeias com a criação pioneira dos GAL – Gabinetes de Apoio Local que se estenderam a grande parte do território, numa inovadora gestão de proximidade entre técnicos e comunidades locais. Ainda com resquícios nos anos 90, foram, malogradamente, descontinuados não tendo mais expressão nos dias de hoje. Actualmente, os Centros Históricos de Portugal sofrem todas as pressões por todas conhecidas, não sendo excepção aqueles que são classificados de Património Mundial (Centro Histórico de Angra do Heroísmo, 1983; Centro Histórico de Évora, 1986; Paisagem Cultural de Sintra, 1995; Centro Histórico do Porto, 1996; Centro Histórico de Guimarães e Zona de Couros, 2001).
Destaque positivo para o caso do Guimarães, um excelente exemplo de valorização de um Centro Histórico, tendo inclusivé estendido, muito recentemente (2023), a sua classificação de Património Mundial na Zona de Couros, numa prossecução muito feliz de desenvolvimento sustentado de património urbano e monumental.
Serão assim abordados, por ocasião dos debates da Bienal e a nível internacional, os inúmeros desafios e oportunidades que estes espaços enfrentam, tanto no presente como no futuro próximo: Mobilidade; Preservação do património; Gestão da carga turística; Gestão do espaço público; Mediação cultural; Gestão de equipamentos culturais em rede; Comunicação concertada; Envolvimento da comunidade local; Integração de novas intervenções artísticas; Contributo da tecnologia; Modelos de gestão cooperativos; Educação e a sensibilização patrimonial.






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